05:45 - O despertador toca, eu me levanto para poder preparar o corpo e a mente para o trabalho (as coisas de sempre: tomar banho, comer alguma coisa, pensar se a vida ainda vale a pena). É bem doido pensar que eu faço isso a tanto tempo e mesmo assim todo dia eu imagino “e se eu não fosse?” como se escapar da realidade capitalista fosse uma simples escolha, é só falar “não quero mais, valeu” e tudo isso ia desaparecer e eu iria poder correr atrás de todos os meus hobbies atrasados e vontades deixadas de lado.
07:00 - Eu pego o ônibus do trabalho e por puro instinto eu procuro sentar com alguém que eu não conheça só para não precisar conversar, o ideal seria um banco vazio mas o meu ponto é um dos últimos então quase todas as poltronas já estão ocupadas. Nos dias bons eu leio alguma coisa (Sylvia Plath é a vítima da vez), nos dias ruins eu escuto alguma coisa calma/depressiva e tento dormir até a fabrica, achando que esses 40 minutos de sono vão salvar o meu dia.
08:00 - Agora sim que as coisas começam a ficar sérias, eu vou fazer meu chá em meio aos meus colegas de trabalho, todos homens de 35 ou mais anos de idade, brancos, heteros e conservadores por puro instinto, escuto alguém reclamando do governo e sinto que o melhor é só pular fora o mais rápido possível. A partir daqui são 8 horas em que eu vou ser produtivo por no máximo 2h e tentar enrolar da forma mais convincente possível as outras 6h para não perceberem que eu realmente não me importo com nada que acontece aqui, isso é só um salário e nada mais, já desisti da ideia de ser bem sucedido no trabalho como uma forma de “sentido da vida” faz um tempo e só continuo porquê as contas chegam todo mês. Cada 5 minutos que eu tenho sem ninguém perto eu tento dar uma passada no Substack para ler alguma coisa que seja no mínimo interessante e tirar um pouco a poeira do cérebro, mas esses intervalos ficam cada vez mais difíceis. Não é que eu não goste do que eu faço, automação industrial é uma área muito interessante para mim que gosto de entender como coisas funcionam e resolver problemas, eu só não vejo sentido nenhum em ficar 8 horas dentro de uma fábrica na frente do computador quando eu poderia resolver tudo de casa em 2 horas no máximo e aproveitar o resto do meu dia em paz ao invés de ter que fingir que sou uma pessoa produtiva.
17:00 - Finalmente o horário de ir embora chega e eu posso ler mais um pouco, são mais 1h de viagem até em casa. No dia não parece tanta coisa assim mas se eu parar para contar que todos os dias são 2 horas do meu dia gastos só com deslocamento eu perco 1/12 da minha vida dentro de um ônibus, por isso eu tento aproveitar ao máximo esse tempo lendo alguma coisa ou escutando algum podcast bom, mas tem dias que o cansaço simplesmente me derruba e eu apago antes do ônibus começar a andar.
18:00 - Meu dia pode finalmente começar. Se eu considerar o tempo que eu gasto com o trabalho como o intervalo entre as 6:00 até às 18:00 são 12 horas perdidas todo dia, um grande total de METADE DA MINHA VIDA DEDICADA A NADA DE INTERESSANTE, isso no caso desconsiderando que o ideal seria eu gastar 8 dessas 12 horas restantes dormindo para que o meu corpo não desista finalmente de mim e vá ser goleiro no Vasco, o que me deixa com 4 horas para eu poder:
E o pior de tudo é que eu não consigo me importar, eu passo pelas pessoas aqui do trabalho como se ninguém existisse, eu escuto os problemas do trabalho como se eles não tivessem impacto nenhum na minha vida (o que em geral é verdade, eu não vou perder o emprego e nem ser repreendido por coisas que não estão 100% ao meu alcance), os resultados são só números em uma planilha que significa que alguns milionários na Áustria vão ficar um pouco mais ricos e que 0,0001% desse lucro vai acabar divido no nosso bolso aqui no Brasil. É tão interessante quanto é cansativo não me importar com as coisas assim, interessante porquê eu consigo ver as coisas acontecendo ao meu redor como se eu não estivesse ali, uma forma de “observador etéreo” que enxerga tudo mas não tem presença física na situação, e cansativo porquê quando você passa tanto tempo não se importando com as coisas ao seu redor fica difícil estar presente nas partes que você sem importa. Eu perdi as contas de vezes que eu passei o dia querendo fazer alguma coisa só para chegar em casa tão cansado mentalmente que não conseguia fazer nada, só olhar para o teto e pensar “eu deveria estar aproveitando esse tempo” o que fazia eu me sentir mais culpado ainda por não aproveitar cada segundo livre que eu tenho.
E é por isso que eu estou aqui hoje, eu não quero mais ficar perdendo tempo com coisas que não vão me agregar nada. De agora em diante, toda vez que eu sentir que meu cérebro está derretendo de tédio no trabalho eu vou postar alguma coisa aqui, nem sempre vão ser textos de crises existenciais igual a esse mas o importante é o ato de documentar meus pensamentos estranhos de vez em quando.